terça-feira, 10 de abril de 2007

Caminhando com Marx e Maquiavel

Enquanto eu, querendo resolver meu problema de ociosidade matinal, andava pelo calçadão da 13 de Julho, observava os ônibus passarem lotados de supostos trabalhadores, na avenida, entre a calçada e os luxuosos edifícios residenciais. No meu devaneio, sentia-me um burguês, ao ser comparado com os passageiros do ônibus, e um proletário, ao lembrar que logo mais estaria vendendo a minha mão de obra por um preço que não daria para comprar um daqueles luxuosos apartamentos. Então, meio sem querer, mergulhava em reflexões: por que, ao colocar a situação de inferioridade de classe, adveio-me o estigma da palavra “proletariado”? Quanto custa a mão de obra humana? Existiria, para os passageiros daquele transporte coletivo, a opção entre estar apertado no ônibus e de passear no calçadão? Morar em uma favela sob condições sub-humanas ou residir em um luxuoso apartamento à beira-mar depende da produção de um trabalhador? Se a classe produtora de riquezas que ocupa uma situação desprivilegiada econômica e socialmente é maioria, então, porque essa situação não se reverte pela força natural do desejo coletivo?
Segundo Karl Marx, o valor da mão de obra humana deveria ser equivalente ao volume de riqueza que ela produz, e essa riqueza teria de estar sob domínio de quem a produzisse. Assim, como ele mesmo fez, usando a história como referência de aprendizagem e tomando como base o fato de que todo relacionamento funda-se em preceitos de domínios políticos, podemos concluir que a relação que traduz a circunstância é a da estrutura de poder econômico como instrumento opressor, voltada ao conflito de interesses.
Não há mal algum em andar de ônibus, passear no calçadão, ou mesmo em ter um apartamento de luxo. Porém, o que se questiona, pela ótica do pensamento de Marx, é o fato de termos uma sociedade regida por interesses minoritários e não pelo desejo da maioria produtora de riqueza, esta expressada pelo citado pensador, dada à época em que viveu, como sendo a classe proletária.
Contextualizar Marx é levantar a possibilidade de revolução, e ter nela o atributo para uma evolução qualitativa do sistema sócio-econômico. A qualquer mero observador que use os seus princípios, verá que somos filhos de uma outra revolução, a qual não é a nossa, e que nos deixou mecanizados. Seja batendo carimbo, apertando parafuso, ou mesmo calculando a estrutura de uma ponte, estamos produzindo, em série, a riqueza da classe dominante.
Imaginemo-nos substituídos por robôs. Ao invés de colhermos o fruto dessa utopia (mais tempo para produção de riquezas ou mais tempo para passear no calçadão ), somos apenas “reaproveitados” em outra engrenagem. Essa mesma engrenagem faz com que as pessoas que transitam apertadas em ônibus apenas observem a paisagem, sem questionar. Essa mesma engrenagem faz com que eu caminhe no calçadão em voltas. Cada passo meu não sei se é uma revolução proletária ou se segue o modelo de produção repetitiva da revolução industrial. Não sei se sou revolucionário ou se estou vestido do príncipe agraciado pelo presente de Maquiavel.
Aos meus ouvidos, walkman ligado, chega a música aleatória de uma emissora de rádio. Não sei viver sem prestar atenção em música. Não sei viver sem fazer comparações. Então, sem muito esforço e involuntariamente, traço um sistema maquiavélico no qual a industria musical representa a estrutura de poder:

ieiê = lambada = aché music = pagode falso = funk = porcaria (tudo igual)
ieieiê à caos à lambada à caos à aché music à caos à pagode falso à caos à funk

E assim se mantém essa industria, a comissão do incompetente, o cargo do político, o casamento incompatível, o silêncio do faminto. Porém, é bom que não joguemos culpa alguma no conservadorismo de Maquiavel, pois ao mesmo pensador não se pode atribuir conceitos ideológicos intencionais ou procurar suas prerrogativas num contexto de melhoria social ou de uma classe qualquer em separado, pois, o que o faz conservador é apenas o modelo formulado para que uma estrutura qualquer se mantenha no poder. Daí, é importante entendermos esses modelos para que possamos detectar, na realidade atual, os esquemas desses mecanismos que se repetem historicamente de forma tão cíclica, que, dessa forma, possamos prever os acontecimentos para antevermos os fatos que envolvem esse jogo de ética própria, na disputa pelo poder e na luta pela sua manutenção. Poderemos assim, criar uma visão mais crítica do que se passa na esfera das diferenças ocasionadas por esses conflitos e, pelo menos, fazer uma revolução particular no nosso senso crítico.
Então, mesmo não andando mais no calçadão, continuo entre a cruz e a espada, entre a mudança e a alienação, refém da revolução industrial, sem muito tempo para atividades de lazer e revolucionárias, fazendo um grande esforço para me representar neste texto, o qual não faço idéia se alguém vai avaliar como revolucionário, conservador, marxista, sensato, equivocado, ou até mesmo elemento de um plano, também maquiavélico, para conseguir alguma expressão que seja suficiente para a minha manutenção na lista dos jornalistas “intelectualóides”, metidos a besta, gurus da palavra que roda, roda, roda e não diz nada.
Amenizando as falhas ou faltas, para não dizer que nem tive o trabalho de fazer uma pesquisa para compor este texto quase erectus-cabeçoidal, ou que não tenha feito qualquer referência de autores, cito o cantor e compositor Zeca Baleiro, quando quis traduzir o nosso espírito ocioso de simples observador: “É mais fácil mimeografar o passado do que imprimir o futuro”.

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